21 DE OUTUBRO DE 2019

Outra vez?


Ponto de Vista do Batista
31 de maio de 2019


Exposição pública de pessoas com fins de comércio, já tivemos no Brasil por três séculos, do 16 ao 19, causando hoje uma mistura de sentimentos, desde vergonha até revolta sincera e válida, porém fora de época, levando tudo isso a um impróprio sentimento de culpa, que ficou lá no passado com os atores daquele tempo, cuja moral não era a atual e não era nossa. Por cerca de trezentos anos pessoas, de ambos os sexos e faixas etárias diversas foram arrancadas, mediante engambelação, de seus lares, de suas tribos, na África negra, sendo trazidas para o Brasil em navios, especificamente para esse fim construídos. Vinham amontoadas nos porões, como se animais fossem, sem o mínimo de compaixão, normalmente voltada ao semelhante dentro da mesma espécie.

Nos portos, onde eram desembarcadas essas pessoas, havia o mercado onde elas eram expostas e comercializadas, variando os preços de acordo com vigor físico de cada uma, o gênero, a faixa etária, as habilidades demonstradas, etc. Os mais fortes e robustos, cobiçados para os trabalhos mais pesados, podiam ser levados a leilão, modalidade na qual o traficante auferia maior lucro. Os interessados na compra tinham o direito de examinar, minuciosamente, cada pessoa em exposição, apalpando-lhe músculos para verificar a rigidez, conferindo dentes, examinando genitais à procura de doenças, pesquisando tudo mais que pudesse revelar algo não desejado, na “peça”, como era adjetivada cada pessoa destinada à venda.

Em rápidas pinceladas, este era o cenário de um mercado de escravos, que funcionou em cada porto negreiro, no Brasil colonial e no Brasil independente até o segundo império. Aos olhos de hoje, tudo isso é revoltante, sentimento não válido para aquela época, cuja moral era outra. O pensamento do Homem evolui ao longo do tempo, o que faz que em cada época prevaleça uma moral, tão diferente da anterior e mais ainda da que virá em seguida. Cabe aqui um lembrete aos julgadores da história que, um dia, daqui a cinquenta ou cem anos, também poderão ser julgados pelo que pensam, falam ou fazem, porque o hoje correto, amanhã poderá não ser.

O comércio de pessoas teve seu tempo com aprovação legal, lamenta-se agora, com aceitação pela maioria, poucos a considerar a desumanidade da escravidão, a crueldade dos meios para mantê-la e tudo o mais a bater de frente com os princípios daquilo que se chama civilização. Diante do que hoje se cultua, foi um erro; um erro que ficou lá atrás e cuja culpa não cabe à sociedade atual. Só se esperava que mais não se repetisse, nem em parte. Mas, ainda que com outra conotação, mas prevalecendo a humilhação da pessoa humana em situação de risco, ainda se pratica ou, pelo menos, uma vez se praticou a exposição de pessoas com o fim de dar-lhes um destino.

É o que denuncia a Associação Nacional dos Defensores Públicos Federais (Anadef) com “indignação e repulsa ao evento organizado pela Associação Matogrossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (Ampara) e pela Comissão de Infância e Juventude da OAB do Mato Grosso, ocasião na qual crianças e jovens de 4 a 17 anos foram expostas em uma passarela de um shopping da capital do Mato Grosso por estarem “aptas” à adoção.”

É difícil de se crer que tal fato tenha acontecido, no momento atual, numa sociedade tão crítica e julgadora com relação à escravidão praticada por nossos antepassados. A exibição dos infantes e adolescentes só difere da exibição dos africanos, nos mercados negreiros dos portos, porque naquela talvez se tenha disfarçado a ignomínia com ares de festa, no shopping, e o destino das crianças e adolescentes seria a doação e não a venda. Crianças e jovens, por muito bem cuidados que tenham sido, foram tratados como objetos, da mesma forma que as pessoas africanas, trazidas à força para ser escravizadas. Gente é gente em quaisquer circunstâncias e condições sociais! Para tais crianças e adolescentes já muito pesa o fato de não terem uma família como referência de origem e precisam de uma que as adote, até que sejam cidadãos e cidadãs independentes. Mesmo entre animais o filhotinho se desenvolve melhor sob atenção especial da mãe biológica e, em muitos casos, também do pai. Muito mais necessária é essa relação do infante humano dentro de sua família. Quando a família original inexiste ou se omite e entra a adotiva, sabe-se dos preconceitos, ocultos ou escancarados, em relação aos disponíveis para a adoção, principal motivo de muitos sobrarem nas casas que os acolhem. Portanto, a exibição das crianças e adolescentes foi uma humilhação a mais e uma violação de seus direitos humanos, sim.

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