11 DE DEZEMBRO DE 2019

Política e futebol não são a mesma coisa


Carta aos Tempos
06 de setembro de 2019


Um erro frequente é querer igualar futebol com política, endossando o aspecto emotivo e irracional das escolhas feitas. Mas eles não são iguais. Se futebol pede uma ligação emotiva, geralmente familiar, entre o torcedor e o clube, que o leva a sofrer ao extremo pelo time “do coração”, a política deixa uma parte considerável do eleitorado à vontade para fazer suas escolhas dependendo da circunstância vivida. Se o “vira folha” (aquela pessoa que muda de clube em razão dos resultados alcançados) é inaceitável no futebol, na política é mais que esperado.

O motivo do comportamento volátil de parte expressiva do eleitorado se deve ao aspecto mais racional existente na política. Na maior parte das vezes o candidato conquista o eleitorado para uma eleição específica, segundo expectativas específicas daquele momento. Tanto o candidato como o eleitorado sabem que a relação é momentânea e volátil, e que qualquer sentimento de lealdade dependerá de resultados conquistados.

Mas uma parte do eleitorado tem uma relação com a política que ultrapassa os limites da razoabilidade. Um componente emocional pode irromper e invariavelmente está associado à imagem pública de um indivíduo. Esse indivíduo vira um líder e consegue uma legião de admiradores que o seguirão independente de razões apresentadas, ou de vícios flagrantes descobertos. A relação dessa parcela do eleitorado com seu líder ultrapassa as razões políticas e vira uma história de amor e fidelidade. É quando o futebol esbarra com a política.

O mito, ou a “liderança carismática”, de acordo com o conceito de Max Weber, ele consegue esse grande feito de imprimir confiança na população por meio de seus atributos alegadamente supra-humanos. Ele consegue imprimir uma liderança com potencial revolucionário, pois pode contestar leis e normas vigentes e convencer a maioria da população da necessidade de superá-los. O modo de conseguir isso é mais emocional que racional, mas uma parcela de racionalidade tem que estar presente, pois ela se refere a uma crise vivenciada pela população e que pede alguma solução. De qualquer modo, a atuação do líder carismático é episódica e extraordinária na política.

Mas o fato da população responder bem a mensagens emotivas na política, tal qual no futebol, acaba por criar uma cortina de fumaça no comportamento da maioria do eleitorado que segue uma lógica que bons consultores políticos são capazes de entender e orientar o político na sua campanha eleitoral.

Uma boa campanha eleitoral é estruturada na seguinte forma: o lado racional está na comunicação política a favor do candidato, que usará os melhores instrumentos de mobilização do eleitorado a seu favor. E esses instrumentos têm forte carga emocional. A ideia é conduzir o eleitorado por meio de reações emocionais induzidas racionalmente pela boa estratégia de comunicação política. E geralmente uma parcela do eleitorado responde favoravelmente àquilo que poderá significar a vitória na eleição.

Porém, sempre restará uma parcela do eleitorado resistente a essa indução emocional e que procurará atuar na eleição de modo mais racional. Essa parcela vê a política desapaixonadamente, espera dela soluções pontuais para os problemas do momento. Eles sempre estarão à parte das lealdades políticas e à espera da melhor proposta. Prontos para mudar de clube sem nenhum sentimento de vergonha.

Política não é futebol.

*Cientista Político/ Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa/ Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG/ Professor de Administração Pública da UFOP

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