21 DE OUTUBRO DE 2019

A régua nos costumes: coletivismo e individualismo


Carta aos Tempos
04 de outubro de 2019


Na última coluna eu abordei a régua de valores na política que vai da extrema esquerda à extrema direita. Agora abordarei uma outra régua que é aplicada aos costumes sociais, mas que tem forte repercussão na política. Juntas, as duas réguas ajudam a compreender nossos posicionamentos nos debates políticos.

A régua nos costumes tem dois polos, ou extremos: um é o “coletivismo” e o outro é o “individualismo”. O coletivismo é uma crença de que a solução de problemas referentes a um costume específico está na intermediação do público, que assim regulará a esfera privada no tocante a esse costume. Já o individualismo é uma crença de que a solução de problemas referentes a um costume específico é da esfera privada e não deve sofrer qualquer tipo de interferência do poder público.

Uma primeira observação pode ser feita a essa classificação: ser “coletivista” ou “individualista” nos costumes não tem relação direta com ser “de direita” ou “de esquerda”.  É possível haver um esquerdista na política com posicionamento individualista nos costumes. Um exemplo é a defesa do direito feminino para o aborto, que é tratado como uma questão da esfera pessoal. E é possível haver um direitista na política com posicionamento coletivista nos costumes. Um exemplo é a condenação da prática do aborto, que será tratada como uma questão de esfera pública. São exemplos de situações extremadas nas quais a régua política se cruza com a régua dos costumes.

Mas, geralmente, uma pessoa de esquerda tende a assumir um posicionamento coletivista nos costumes. Ela deseja que o poder público arbitre questões que são cruciais na vida do indivíduo, pois entende que o indivíduo depende desse poder para assumir suas qualidades pessoais. E uma pessoa de direita tende a assumir um posicionamento individualista, pois ela deseja que o indivíduo possa ter a liberdade de fazer suas próprias escolhas e que seja responsabilizado por elas.

Entre um extremo e outro, os indivíduos se posicionam na régua dos costumes. Como os costumes são muito variados, os posicionamentos também serão. Assim, é normal que um indivíduo defenda que para determinado costume o poder de decisão seja do indivíduo, enquanto para outro seja a sociedade quem faça isso. A questão das drogas (lícitas e ilícitas): deve ser um assunto de alçada estritamente pessoal, ou o estado deve arbitrar diretamente? Os hábitos de higiene, são uma questão decisão individual ou do estado? Um indivíduo resolver viver nas ruas, questão pessoal ou de estado? E assim vai...

A régua dos costumes nos lembra de como é difícil querer rotular os indivíduos tendo em consideração apenas suas opções políticas. Afinal, a vida, felizmente, não se resume à política, ela é muito mais rica e diversificada. A conclusão não poderia ser mais óbvia: não é adequado atribuir valores políticos (“de direita” ou “ de esquerda”) aos costumes, sejam eles quais forem. Os costumes nos ligam aos nossos antepassados, aos nossos concidadãos, ao nosso estilo de vida e por isso são diretamente associados à vida familiar e pessoal de cada um de nós, sendo valores que a experiência pessoal do indivíduo vai cultivando ao longo do tempo.

O indivíduo não cabe em rótulos, pois sua vida é muito mais rica que qualquer categoria inventada.

*Cientista Político/ Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa/ Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG/ Professor de Administração Pública da UFOP

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