21 DE OUTUBRO DE 2019

O Rio Maracujá e as andorinhas


Ponto de Vista do Batista
11 de outubro de 2019


Mobilizam-se lideranças que, preocupadas com a preservação do meio ambiente e da saúde coletiva, chamam a atenção para o Rio Maracujá, triste resultado da expansão desordenada de Cachoeira do Campo, sem mesmo uma política de saneamento pleno, que inclua o tratamento dos resíduos.

Não rotulemos “ambientalistas” as pessoas locais voltadas para a questão, porque o termo já se torna maldito, tanta polêmica tem levantado mediante manipulações, exageros, intrigas e mentiras. À vista não, mas por trás de assunto tão sério, realmente preocupante, podem esconder-se interesses estranhos, nada condizentes com o que se espera de uma política de preservação ambiental. Fiquemos no Maracujá, que já foi mesmo rio, no verdadeiro sentido da palavra, e no que se pretende fazer para devolver-lhe parte do que já teve, a limpeza de suas águas.

Eu o conheci ainda razoavelmente caudaloso e sereno, no período da estiagem, tornando-se volumoso e impetuoso, no período chuvoso, quando suas águas saltavam do leito para lamber pontos mais distantes de suas margens. Do tempo da minha infância, lembro-me de uma enchente, ocorrida durante a noite, que assustou muita gente. O sino da igreja-matriz chegou a ser usado, alertando a população para a solidariedade devida aos ribeirinhos. Em alguns pontos, durante a estiagem, chegava a ser intransponível a pé; continua a ser também hoje, mas, por outro motivo... Havia vida em suas águas, o que nos valia o prazer e higiene mental, encontrados numa pescaria, além do pequeno pescado que rendia boa fritada! Nas incursões ao longo de suas margens, a garotada encontrava muita aventura, incluindo-se a escalada perigosa de ingazeiros, que cresciam a balançar sua ramagem sobre as águas. O risco era grande, mas para o espírito aventureiro valia a colheita de grandes e robustas bagas dos ingás de um amarelo vivo. Em alguns pontos, ao longo das margens, os de mãos habilidosas encontravam o barro próprio para primitivas esculturas. O Vai-e-Vem era o “balneário”, proibido pelos pais, porém furtivamente curtido pela meninada, nos dias mais quentes. Constituído de um escorregadouro natural na pedra (espécie de tobogã), que terminava num razoável poço, o Vai-e-Vem deu a muitos a oportunidade do aprendizado da natação. Para quem não sabe, o Vai-e-Vem ficava, ou fica, à montante da ponte (na saída para Ouro Preto) que leva o mesmo nome, dado pelo povo. O mais surpreendente é que aqui já houve praia, pequena, pobre, mas já houve. O campo de futebol, hoje, pertencente a um clube do gênero, mas, anteriormente pertencente ao Oratório Festivo, tinha a separá-lo, em toda sua extensão, do Rio Maracujá, uma faixa de areia, muito fina e branca. Essa areia era trazida pelas águas durante as cheias e ali depositada. Por isso, o campo era chamado “Campo da Praia” naquela época! Prova de que o Maracujá foi ponto de lazer está numa foto feita no início do século vinte. Ela mostra grupo de rapazes, numa espécie de piquenique naquela ilha de pedra, logo abaixo da Ponte do Palácio.

Registre-se ainda que, da força das águas do Maracujá, os salesianos produziram energia elétrica para suprir as Escolas Dom Bosco; primeiramente por um gerador montado no então chamado Engenho, localizado na baixada à frente do estabelecimento e, a partir de 21 de abril de 1955, por meio de pequena hidrelétrica instalada na conhecida cascata. Essa usina funcionou até a chegada da CEMIG. Não nos esqueçamos da outra pequena hidrelétrica que, instalada ao fim da corredeira, abaixo da Ponte do Palácio, moveu fábrica e forneceu energia aos cachoeirenses, durante algum tempo.

Paralelamente às lembranças sobre o Maracujá e por acabarmos de viver setembro, há que registrar dois fenômenos, um natural e outro sócio-religioso, hoje desaparecidos, que formavam com a floração do ipê amarelo o trino característico da chegada da primavera, nesta região. No céu, tínhamos a travessia de largas e extensas faixas escuras, formadas por milhares ou milhões de aves de arribação, às vezes, a ligar um extremo a outro no horizonte. Chamávamos gaivotas àquelas aves que, na verdade, eram andorinhões, associando o fenômeno de sua chegada a outro, este de cunho religioso, que se dava nas estradas. Dizíamos que as “gaivotas” se dirigiam para o Jubileu do Bom Jesus, em Congonhas, cuja realização provocava grande afluxo de romeiros, então denominados “congonheiros” pelo povo. O movimento de caminhões do tipo ‘pau-de-arara” tinha início logo à entrada do mês de agosto, para só se encerrar no dia 14 de setembro. Dezenas e dezenas de caminhões vinham de longe e por aqui passavam, diariamente, a levantar poeira das estradas, para a alegria dos bodegueiros instalados ao longo do percurso.

Os “congonheiros”, sabemos, desapareceram em razão de mudança no comportamento social, mas e as andorinhas, para onde foram?

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