30 DE MARÇO DE 2020

Minha cova, minha morte


Ponto de Vista do Batista
18 de outubro de 2019


Em outras oportunidades, no passado, o tema um tanto melindroso já foi abordado, mas é tão importante que nunca é demais voltar a ele, ainda que, por sua natureza, possa não agradar a alguns.

Avança-se na segunda metade do mês de outubro para, dentro de alguns dias, se ter o “Dia de Finados”. Assim como em relação a muitos outros assuntos, o que se disser aqui é uma questão de opinião pessoal, não havendo nenhuma intenção de censura a este ou aquele comportamento com relação à morte e procedimentos relativos ao destino final dos restos mortais de qualquer pessoa. O que pesa na decisão de se tocar no assunto, à vezes polêmico e controverso, é a incoerência entre a pregação da supremacia dos valores espirituais e a prática do “culto” à matéria, algo que muito se evidencia na civilização cristã.

De um lado, a alma, o espírito ou sublime essência do ser, que persiste por toda a eternidade, a requerer toda uma programação de vida útil e coerente com os mais significativos propósitos do bem; do outro, o corpo de carne, a merecer todos os cuidados enquanto morada da Vida, mas que deve voltar aos elementos primários da natureza, tão logo cesse sua função de abrigá-la. Embora sempre ouçam que o valor do corpo está na vida, que ele contém, as pessoas preocupam-se demais e, cada vez mais, com o que pode acontecer a ele, depois de exaurida vida. Isso alimenta uma verdadeira “indústria da morte”, desnecessária e incoerente com os propósitos da vida; desnecessária porque o corpo deve seguir o curso natural da dissolução ou decomposição, razão pela qual é enterrado ou cremado, em auxílio ao processo de retorno às origens; incoerente com os propósitos da vida, porque desvia atenção e recursos devidos aos cuidados na preservação da saúde e de atendimento às necessidades mais imediatas. Sem falar na conduta de vida, especialmente no que toca à convivência com os semelhantes, que teria como propósito a busca da espiritualidade e consciência tranquila na hora da transição, pessoas deixam de ter um plano de saúde, preferindo as agruras do SUS, mas não deixam de ter o plano funerário para toda a família; todos os meses têm a preocupação de pagar a respectiva prestação, assim como têm com as contas de luz, de telefone, etc.

Pergunta-se: é normal? Se visto sob a própria óptica do comportamento humano, muitas vezes irracional, considera-se normal. Porém, sob o crivo do bom senso, isso é insano. Dir-se-ia estar em busca do suicídio, embora a contragosto! O dinheiro gasto previamente com a própria morte, em nome de um destino, dito regular e respeitoso, para os restos deixados, poderia ser empregado para melhor alimentação, para frutas, para medicamentos, se não para o lazer e a satisfação pessoal, muito mais importante para si que os primeiros momentos após sua própria morte. Não há muito tempo, uma pessoa revelou-se preocupada com o fato de não possuir roupa adequada com que preparar o que foi seu corpo para ser enterrado. Gente, isso é problema para quem fica. Cabe aos vivos isso providenciar! Se não houver roupa, qual o problema de ir pelado ou pelada? Pelado ou pelada é a chegada a este mundo e por que não também a partida? Enrole-se em jornais velhos e se cubra flores, ora essa! Vão dizer que isso é egoísmo. Pois que seja, cabendo a mim ser o mais egoísta a bater palmas para os meus iguais! Em vista de tanta coisa interessante e importante na vida, essa preocupação com o pós morte chega a ser ridícula! Tanta preocupação antecipada e não se sabe nem se haverá corpo a ser velado e enterrado, ou cremado. Ninguém sabe em que circunstâncias a própria vida, neste mundo, chegará ao fim.

Se as pessoas tivessem o hábito de pensar e pensar mais, seriamente, perceberiam que gastar tempo e dinheiro, antecipadamente, tendo como objetivo o destino do corpo que deixar ao morrer, é como armar um estelionato contra si próprio. Quem já morreu não é dono de nada! Portanto, o corpo que resta pertence aos vivos e cabe estes dar-lhe o destino final; é obrigação de quem fica cuidar dos restos mortais de quem parte. Não é nenhum ato de caridade como sugere o celebrante ao final do rito fúnebre: “como último ato de caridade ao nosso irmão vamos conduzir seu corpo à sepultura”. Ora, isso cheira à hipocrisia! O pobre coitado pagou a conta, que cabia aos que lhe sobrevivem e ainda falam em ato de caridade! Nesses casos, se ato de caridade há, é para com os próprios circunstantes, porque aquele corpo federá e muito federá, dentro de poucas horas, pondo em risco a saúde da comunidade em volta.

Gente, vamos viver, viver bem de corpo e alma, sem nos importar com a existência da “indústria da morte” e do programa paralelo “minha cova, minha morte”!

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