30 DE MARÇO DE 2020

Preconceito disfarçado


Ponto de Vista do Batista
25 de outubro de 2019


De acordo com dicionários, “velho” significa “não ser jovem, não ser novo”; “avançado em idade”, “que tem muito tempo de vida ou de existência”. Eu prefiro definição bem pessoal, tanto para coisas quanto para o ser humano: velho é o que tem relativo tempo acumulado. Quanto ao vocábulo “idoso” dicionários registram; “que tem muitos anos de vida”; “velho”; “que ou quem tem idade avançada”. Como se pode ver, ambos o termos têm o mesmo significado, carecendo de verdade o argumento de que “velho” é termo preconceituoso, significando “estragado”, “mal conservado”, “imprestável”, etc. Se preconceito existe, ele foi criado contra a palavra “velho”, ao substituí-la por “idoso”.

É coisa própria da hipocrisia da sociedade e da ignorância humana, que pretende alterar uma condição mediante troca da palavra que a define. Com o uso de “Velho” ou “idoso”, em nada se altera a condição de pessoas acima de 60 anos, faixa que se convencionou chamar “idade avançada” ou “terceira idade”, outra bobice criada para mascarar a realidade. A forma como terceiros e a sociedade afetam, positivamente ou negativamente, a pessoa humana é pelo tratamento, respeitoso ou desrespeitoso, que lhe é dirigido; é pelo reconhecimento ou desconhecimento de seus direitos, não importando aí a idade, podendo ser o infante antes do balbucio das primeiras palavras ou o ancião centenário.

E ao falar em direito e desrespeito a ele, registre-se a canalhice do setor de transporte coletivo de passageiros, no município de Ouro Preto, que se arvora em dono da verdade e acima da lei municipal que, em consonância com o Estatuto do Idoso, estendeu a gratuidade do transporte aos maiores de 60 anos. O corte desse direito, sim, agride, ofende e afeta, negativamente, a condição dos merecedores da gratuidade, em razão de sua contribuição ao desenvolvimento da comunidade mediante seu trabalho.

Também o fato de a sociedade esquecer-se de que forma o(a) cidadão(ã) participou da força de trabalho do país é deplorável falta de consideração. Aposentadoria não é profissão e, sim, condição, mas nas coletas de dados pessoais, aposentado(a) figura como opção entre profissões diversas, assim como a mídia classifica, genericamente, aposentado(a) a pessoa que deixou de trabalhar por força da aposentadoria. Quem era pedreiro, marceneiro, professor, advogado, médico, na ativa, não deixa de ser aquele profissional ao se aposentar, ainda que por força legal seja impedido de exercer a profissão. Que se adicione a condição “aposentado(a)” como extensão à profissão, que é sua marca pessoal até a morte.

Mas, não para por aí o descarte do velho, disfarçado com o emprego dos termos “idoso” e “terceira idade”. Torna-se comum, na mídia, referências a pessoas mais velhas mediante termos como “sinhorzinho” e “sinhorinha”. Ora bolas, por que não senhor e senhora como nos demais casos? Hipocritamente empregados como modo carinhoso, são, na verdade, formas de diminuir ou desvalorizar as pessoas que, presumidamente, não mais produzem. Pior ainda quando os mesmos profissionais da televisão, em lugar de “sinhorzinho”, usam “tiuzinho”, diminutivo de “tiu”, que seria “tio”, mas pronunciado incorretamente como o fazem paulistas. “Tiu”, para nós outros, é apelido de cachorro (exceção em Timor Leste, que também fala Português e onde “tiu” é equivalente ao nosso tio (ti-o). Só mesmo os paulistas para dizer “tiu” em lugar de tio! “Tio” ou “tia” é irmão(ã) irmão(ã) do pai ou da mãe em relação aos próprios filhos, como apontam dicionários. Pessoas mais velhas devem ser tratadas e referenciadas por “senhor” e “senhora”, e fim de papo!

O descarte dos mais velhos, feito por meio do tratamento e referência corresponde ao quartinho dos fundos, em ambiente doméstico, construído sob a desculpa de dar mais liberdade ao vovô ou vovó, mas, na verdade, serve para que se evitem “inconveniências”. Paradoxalmente, quanto maior a família, maior é o isolamento ao qual a pessoa mais velha está circunscrita, quando não internada em “casa de repouso”. Não é regra geral, porém muito grande é o número de pessoas idosas, nessa situação, depois de muito trabalhar e muito sofrer para criar e educar os filhos. “Velho” ou “idoso”, tanto faz, assim como pouco a importar o Dia Internacional do Idoso, celebrado em 1º de outubro, se não há o espírito da compreensão, da solidariedade, do respeito, a considerá-lo, continuamente, integrante da sociedade e não um ser à parte, à espera da morte.

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