19 DE NOVEMBRO DE 2019

Ouro Preto vive a terceira recessão de sua história


Carta aos Tempos
01 de novembro de 2019


*Mauro Werkema

Ouro Preto, em 321 anos de história, já sofreu duas grandes recessões econômicas e sociais que determinaram seu empobrecimento por anos: a exaustão do ouro, a partir de 1760, e a mudança da capital para Belo Horizonte em 1897. Infelizmente, vários indicadores mostram que a cidade entrou, nas últimas duas décadas, em uma já observável estagnação econômica, com o empobrecimento de sua população e sua evasão, em busca de melhores condições de trabalho e vida. Seria sua terceira grande recessão na sua tricentenária história.

Com a escassez do ouro, nas últimas décadas do Século XVIII, foi imensa a fuga da população, não só a que se dedicava à mineração mas também a que se sustentava desta atividade. E que gerou o surto artístico-cultural do Barroco Mineiro, que levou a UNESCO a inscrevê-la na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade.  O ouro-pretano deixou de ser minerador e muitos se tornaram agropecuaristas, em regiões de melhores terras, no Centro-Oeste de Minas, no Sul de Minas e até em São Paulo, norte do Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul. Surgiu o Ciclo do Café, produto de que Minas ainda hoje é o maior produtor brasileiro.

A nova capital retirou da cidade cerca de 12 mil ouro-pretanos, ao longo de dez anos, e não só funcionários públicos que acompanharam o Governo do Estado mas também prestadores de serviço. Deu-se novo período de decadência e empobrecimento. Mas foi o que preservou a cidade e seu perfil arquitetônico colonial luso-brasileiro. O arquiteto Sylvio Vasconcelos, pesquisador da História de Minas e da arquitetura colonial, indicado para o escritório local do IPHAN, realizou na década de 1940 um extenso e famoso levantamento populacional e urbanístico, constatando a redução da população desde a mudança da capital. E mostrou que vários casarões antigos, inclusive da Rua Direita, estavam abandonados e alguns quase em ruina. E foram ocupados por famílias que, em sua maioria, vieram dos distritos.

Em 1952, a canadense Alcan compra a Elquisa, fundada em 1936 por Américo Gianetti e amplia a fábrica de alumínio aproveitando a bauxita, então farta na região. A Alcan chegou a manter, entre empregos diretos e indiretos, cerca de 3.600 pessoas, rompendo o ciclo de estagnação ouropretana. A Ferro Ligas, hoje paralisada, empregou mais de 300 pessoas, por três décadas. Ambas alimentaram as receitas públicas por muitos anos mas também atraíram populações de outras regiões, surgindo os Bairros Saramenha, Bauxita e expansões de menor qualidade habitacional. Hoje, sem a bauxita próxima, sem a ferrovia, com energia elétrica cara e com concorrentes fortes, mais longe da indústria final e mais competitivos, a Alcan acabou perdendo condições de sobrevivência plena. E é verdade que o Ciclo do Ferro não trouxe para Ouro Preto grandes ganhos e, nos últimos anos, perdeu a Mineração da Serra Geral e sofre a paralisação da Samarco, com redução dos royalties que recebia. Mineração no território ouro-pretano só em Miguel Burnier, mais próximo de Conselheiro Lafaiete e Congonhas.

Seria muito importante que a UFOP, por sua Escola de Ciências Econômicas, realizasse diagnóstico sobre a economia ouro-pretana. Hoje, é senso comum que ela se restringisse hoje aos recursos que a UFOP injeta na cidade, através dos salários de funcionários, professores e os gastos de sobrevivência dos alunos. E também do que é investido pelo Instituto Federal Tecnológico, a antiga Escola Técnica. E ainda pelo turismo, que sustenta empregos na rede receptiva ao visitante, restaurantes, hotéis, lojas de presentes. O setor, pelo depoimento de prestadores de serviço, revela redução do fluxo turístico e uma perda do poder aquisitivo dos visitantes. Há consenso de que a cidade ainda não explora o imenso potencial turístico da cidade histórica por falta de um planejamento mais ousado e competitivo e uma melhor qualificação do chamado Turístico Receptivo. O Centro de Convenções, da UFOP, não atua na captação de realizações do Turismo de Eventos e Negócios, segmento de maior potencial econômico e de geração de receitas e empregos. Hoje, mantém-se o fluxo turístico mas de menor qualidade aquisitiva. De resto, receitas maiores somente no Carnaval e Semana Santa.

A Prefeitura, grande empregadora, sustenta dois mil funcionários, com salários baixos e médios, com receitas insuficientes para um efetivo investimento nos serviços básicos, como saúde, educação, manutenção urbana e outros. Não sobram recursos para obras de maior vulto. Grande empregadora, esgota seu orçamento mantendo empregos na cidade e nos treze distritos, numa ação mais social do que de efetivo investimento na evolução econômica e social da cidade. A cidade, embora tombada, não recebeu recursos significativos dos Governos Federal e Estadual.

Não existem, portanto, dados econométricos atualizados sobre esta recessão atual, seu perfil, indicadores setoriais, identificação de oportunidades de investimento. Mas a recessão atual se torna visível no empobrecimento da população e seu poder de consumo, da retração no comércio, dos investimentos, na falta de oferta de novos empregos, na expansão urbana desordenada e empobrecida. A recessão ouro-pretana inscreve-se também na grande recessão brasileira como na crise de Minas Gerais, quebrada e insolvente. O PIB brasileiro cresce apenas 0,8% este ano e já completa duas décadas de estagnação.

Mas a recessão tem também causas locais, na falta de um programa econômico com visão de futuro, ausência de empreendedorismo, de identificação e promoção de oportunidades de investimentos, falta de ação para atração de novos negócios, na exploração moderna e competitiva do turismo.

Este diagnóstico econômico propiciaria à eleição de 2020, para a Prefeitura e Câmara Municipal, uma melhor qualificação dos debates e trazê-los para as questões reais e urgentes da cidade. E poderia evitar o “mais do mesmo”, ou seja, disputas apenas motivadas por vaidade e apegos ao poder. E traria novas propostas e ideias para um debate essencial sobre a cidade e seu futuro desejável.

*Jornalista

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