04 DE JUNHO DE 2020

Não esqueça o totalitarismo


Desvendando a Política
23 de janeiro de 2020


por Adriano Cerqueira

Mas o que é desconcertante no sucesso do totalitarismo é o verdadeiro altruísmo dos seus adeptos. É compreensível que as convicções de um nazista ou bolchevista não sejam abaladas por crimes cometidos contra os inimigos do movimento; mas o fato espantoso é que ele não vacila quando o monstro começa a devorar os próprios filhos, nem mesmo quando ele próprio se torna vítima da opressão. (ARENDT, Hanna. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 357).

Estamos vivendo tempos de debates acalorados sobre “nazismo”, “fascismo” e “comunismo” e no qual alguns, de modo desavergonhado, tentam justificar esse ou aquele regime como “melhor” porque teria matado menos ou porque se matou teria sido por “razões revolucionárias”. Em geral, fica patente a quem tenta acompanhar os debates que falta nos interlocutores a repulsa aos notórios fatos de extrema crueldade, violência e perseguição que esses regimes produziram e ainda produzem (como Cuba, Coréia do Norte ou China).

Na primeira metade do século XX o mundo viveu experiências de regimes políticos e econômicos que atacaram frontalmente os ideais liberais. Inicialmente, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) desenvolveu no decorrer de décadas um regime de forte conotação autoritária, no qual apenas poderia existir um partido político no país (o partido comunista), com os órgãos de imprensa controlados pelo governo do partido único, com uma forte censura na produção de livros que eram centralmente controlados pelo governo do partido único, com a inexistência de sindicatos livres, e no qual os opositores do regime, quando identificados, eram julgados e condenados ou a trabalhos forçados (muitas vezes em campos de concentração) ou simplesmente fuzilados.

Situação similar foi vivida por alemães e italianos nos anos 20 e 30, quando os regimes nazista e fascista, respectivamente, foram implantados nesses países. A oposição era igualmente censurada, perseguida e muitas vezes fuzilada, e o estado tinha uma estrutura de representação política e sindical rigidamente controlada pelo partido único. Atrocidades contra opositores e grupos étnicos também ocorria.

Foi analisando as terríveis características comuns em regimes que, à primeira vista, eram contraditórios (nazismo e fascismo “é de direita”, enquanto comunismo “é de esquerda”) que Hanna Arendt desenvolveu o conceito de totalitarismo, e ao discorrer sobre a natureza desse regime ela não teve dificuldades para indicar fatos produzidos por nazistas e bolchevistas, ou por líderes como Hitler e Stalin, nos seus monstruosos governos. Um ponto destacado por ela foi a necessidade do uso da propaganda na promoção dos governantes, no chamado “culto à liderança” e de como após a morte de um líder logo surgia um novo para ser fanaticamente cultuado. A propaganda oficial, midiática e voltada para a promoção do líder é uma das grandes marcas do totalitarismo. Mas ela só pode funcionar bem e a longo prazo se, no país, existir um partido único, com os órgãos de imprensa devidamente controlados pelo governo do partido único e com a oposição controlada (seja em prisões ou em campos de concentração, ou simplesmente fuzilada, como nos paredões).

Regimes totalitários tem uma mesma natureza: são contrários à democracia, à diversidade, à pluralidade, eles promovem uma intensa perseguição contra quem pensa diferente ou contrariamente aos valores promovidos pelo governo. São regimes militarizados, a justiça é dominada pelas conveniências das lideranças do partido único e eles têm uma natureza retrógrada, pois os valores da geração que implantou o regime são eternamente promovidos e cultuados.

Porém, e é incrível isso ainda existir, há legiões de adoradores de regimes totalitários que se recusam a ler e entender as experiências totalitárias na URSS, na Itália de Mussolini, na Alemanha de Hitler, em Cuba, na Coréia do Norte, na China, entre outros estados que ainda persistem nos tempos atuais. Há pessoas que ainda cultuam Stálin, ou Hitler, por exemplo. Provavelmente fazem isso porque se recusam a identificar os elementos de um regime totalitário nos modelos que eles cultuam. E é interessante observar que nos acalorados debates dos tempos atuais sobre fascismo (com suas variantes, como “neofascismo”) versus comunismo nunca apareça o termo “totalitarismo”. Houve um tempo que esse termo era mais presente nos debates.

No prefácio à primeira edição do livro Origens do totalitarismo, em 1950, Hanna Arendt nos ajuda a entender essa situação: Compreender não significa negar nos fatos o chocante, eliminar deles o inaudito, ou, ao explicar fenômenos, utilizar-se de analogias e generalidades que diminuam o impacto da realidade e o choque da experiência.

Que no debate contemporâneo a máxima de Hanna Arendt seja sempre lembrada: monstruosidades produzidas por governos de natureza A ou B devem ser denunciadas, seja para investigar de modo mais profundo sua ocorrência, seja para evidenciar uma justa indignação contra um elemento desumanizador gerado por este ou aquele regime.

Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa

Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG

Professor de Administração Pública da UFOP

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