08 DE AGOSTO DE 2020

Cadê o dilúvio?


Ponto de Vista do Batista
06 de fevereiro de 2020


Por Nylton Gomes Batista

Chegam a ser engraçadas as diferente formas com que reagem as pessoas diante de um fato comum a todos. Diversos também podem ser os fatores na determinação das diferenças. Um desses fatores pode ser a experiência acumulada.

Há poucos dias recebi, pelo Whatsapp, uma foto da suposta arca de Noé, acrescida da informação de que a mesma sairia de estação rodoviária, à determinada hora. De cara, não entendi bulhufas e fiquei encucado por uns bons momentos. Que significado estaria por trás daquele ícone bíblico? O carnaval ainda estava longe e, mesmo assim, que raios de ligação poderia ter aquela figura com a festa do rei Momo? Não achava a explicação para a coisa e aquilo já me incomodava. Não gosto de curtir dúvidas e procuro explicação para tudo que vejo de estranho, especialmente à noite, longe das luzes. Não era esse o caso, mas a coisa já me incomodava e me dispunha a pedir explicação ao remetente daquela mensagem cifrada, quando me deu um repentino estalo.

A revirada na minha usina de ideias foi tão grande, que passei a rir sozinho. De fato, estava sozinho, porque se alguém me visse a rir daquele jeito, diria que a caduquice teria me baixado de forma súbita. A princípio, ria de mim mesmo, ria da minha estúpida ignorância diante de algo tão claro, tão aberto aos olhos de quem quisesse ver! Somente eu não via! Estávamos no terceiro, que seria o último dia consecutivo de chuva, daquele ensaio de invernada que se teve em janeiro. Quem enviara a imagem, por ser ainda jovem, tinha aqueles três dias como algo anormal, fora do comum, daí sua mente ter evocado o dilúvio e, consequentemente, a arca. Eu continuava a rir, mas mudara o foco, da minha dissintonia com o assunto para a realidade das novas gerações em relação aos fenômenos climáticos. Ria do exagero da comparação daqueles três dias de chuva com o dilúvio bíblico. Logo em seguida, entretanto, cheguei à conclusão que os mais jovens não têm culpa, em razão da alteração climática, que vem se observando ao longo dos últimos anos; as gerações mais jovens não têm outra referência de regularidade das chuvas se não a do período no qual se observaram alterações.

Em Cachoeira, o fator de comparação mis evidente é o Maracujá, cuja classificação “rio” estava de acordo com seu volume regular, no passado, mas hoje soa ridículo ante sua minguada e fétida correnteza. Entretanto, mesmo após seu volume reduzido, continuou como indicador do volume de chuvas, nesta região. No passado, nem tão distante, as cheias do Maracujá no período chuvoso eram uma constante, chegando a dois transbordamentos por ano, na área central. Em tais transbordamentos, a água ia lamber a margem da rodovia, na Praça Coronel Ramos. Nos últimos anos, isso não tem mais acontecido. Passa-se período chuvoso sem que ele atinja meia calha. Por isso, o susto de muitos que o viram na iminência de sair do leito, há cerca de duas semanas. Têm razão ao exagerar na comparação!

Mas, se eles pudessem dar um salto para trás, no tempo, veriam que, praticamente, não chove, na atualidade! As chamadas invernadas, que costumavam ocorrer em outubro/novembro, podiam chegar a quinze, vinte, até trinta dias de chuvas persistentes. Imagine-se o desespero da dona de casa e mãe, para dar conta de todo o trabalho doméstico. Ainda que houvesse água limpa, a roupa suja se acumulava, pois não havia sol para secá-la e muito menos a secadora.

Imagine-se a situação de mãe, sem sol para secar fraldas do bebê! Apelava-se para o ferro de passar, em lugar do sol! Água encanada era um luxo para poucos e nem sempre limpa enquanto chovia. A grande maioria havia que carregar água dos chafarizes públicos, em hora predeterminada, na área central, ou de alguma bica, nos pontos mais afastados. A alternativa mais usada, então, era o recolhimento da água da beira do telhado. Enfileiravam-se latas, bacias e quaisquer outros vasilhames, que houvesse, debaixo das goteiras e, assim, garantia-se o líquido, pelo menos, para o preparo da comida. Aqui havia outro problema, pois, com chuva não havia lenha seca, a menos que se dispusesse de depósito coberto para tal fim. Para se deslocar a outras localidades, o jeito era guardar o fim da invernada; estradas eram interrompidas. Mesmo depois de asfaltada, a rodovia costumava ser bloqueada por queda de barreira, como consequência das chuvas persistentes.

Conclui-se que as chuvas de agora são apenas garoas em comparação com as do passado!
 

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