04 DE JUNHO DE 2020

Os protestos no Chile


Desvendando a Política
13 de fevereiro de 2020


No dia 25 de outubro de 2019, mais de um milhão de chilenos ocuparam as ruas da capital, Santiago, em uma das maiores manifestações já realizadas. Além de Santiago, outras cidades foram ocupadas por manifestantes nesse dia. Um ponto em comum foi o modo como elas foram mobilizadas: pelas redes sociais.

Em colunas publicadas aqui eu venho discutindo os novos modos como o cidadão, mundo afora, tem se informado sobre política e, também, vem se mobilizando: as redes sociais. Com o advento do smartphone cada indivíduo alcança um poder de informação jamais testemunhado e pode, também, tornar-se ativo na produção de informações e de conhecimentos, usando as diversas plataformas digitais para esses objetivos. 

Voltando para o Chile, a grandeza dos protestos lembra muito os que ocorreram no Brasil, em junho de 2013. Na época, institutos de pesquisa procuraram saber as razões dos manifestantes e, também, o modo como eles se mobilizaram. O grande meio de mobilização foram as redes sociais e os efeitos dos mega protestos de junho de 2013 foi uma radical transformação na política representativa brasileira, que ainda estamos assistindo seus efeitos.

No Chile, o instituto IPSOS procurou investigar as razões e os sentimentos dos manifestantes. Ele aplicou uma pesquisa de tipo painel, na qual a adesão é espontânea e sobre o total de usuários que responderam às perguntas (55.000) foi aplicado uma amostra por cota de sexo e idade de 1003 casos. Basicamente, os 55.000 respondentes foram reduzidos a uma amostra representativa da população chilena de 1003 casos, ação fundamental para evitar um maior enviesamento nos resultados.

Sobre essa pesquisa, eu destaco a primeira pergunta: Sobre la actual jornada de protesta en Santiago y algunas ciudades, ¿cuál cree usted que es la principal razón de su origen? As respostas foram: “Las personas se cansaron del costo de la vida, las alzas de precios, el nivel de los sueldos, la calidad de la salud, el monto de las pensiones, entre otros" (67% das respostas); "La clase política en general no ha sido capaz de escuchar a la gente y sus demandas" (16%); "Fue una oportunidad para la violencia y vandalismo, aprovechando el descontento" (10%); "La falta de liderazgo del gobierno en los temas importantes para el país y las personas hizo crisis" (4%); "Es una protesta política de la oposición al actual gobierno y el Presidente" (3%); "No sabe" (1%).

De imediato, fica evidente a complexidade das razões que motivaram os protestos, pois não houve um tema apenas, mas diversos (como aconteceu no Brasil em junho de 2013). Se havia uma impressão que era um movimento contra o governo, a pesquisa logo a desfaz, pois apenas 4% dos respondentes chilenos responderam assim. E meros 3% acham que foi a oposição que fez as manifestações. Logo, a grande maioria demonstra uma insatisfação generalizada contra a carestia, a qualidade de alguns serviços públicos e o modo como a política e seus representantes vem atuando. O mesmo grau de insatisfação foi detectado nas pesquisas feitas aqui no Brasil, por ocasião dos protestos de junho de 2013, também chamados de “Protestos da Copa das Confederações”. Sobre isso, é importante destacar que o Chile abrigaria, neste ano, dois grandes eventos internacionais: APEC (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico) e a COP25 (Conferência sobre o o clima da ONU, que seria realizada no Brasil). Os custos assumidos pelo Brasil para as copas das Confederações e do Mundo, em uma situação de carestia sentida pelos cidadãos brasileiros, foram suficientes para motivarem os grandes protestos. Apesar de no dia 30 de outubro o presidente Sebastián Piñera ter anunciado que o Chile não mais sediará essas duas grandes reuniões, seus efeitos já foram sentidos pela população.

Os grandes protestos de junho de 2013 no Brasil mudaram drasticamente nossa dinâmica política representativa e ainda estamos sob seus efeitos. Eu arrisco afirmar que o mesmo acontecerá no Chile.

*Cientista Político/ Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa/ Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG/ Professor de Administração Pública da UFOP

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