09 DE AGOSTO DE 2020

As eleições nos Estados Unidos


Desvendando a Política
14 de fevereiro de 2020


Por Adriano Cerqueira*

Este ano haverá eleição presidencial nos Estados Unidos, que é um processo que se destaca dos demais países democráticos por conjunto de particularidades. Tendo em consideração a relevância dos EUA seu processo eleitoral merece ser analisado.

Uma primeira característica relevante é que o voto não é obrigatório. O cidadão para se qualificar eleitoralmente tem que fazer o registro para que seu voto seja computado.

Um segunda característica importante são as chamadas “primárias”, um longo e caro processo no qual os partidos definem, por voto popular, seus candidatos. Cada estado do país realiza suas primárias que elegerão delegados que, por sua vez, elegerão o candidato do partido.

A terceira característica é o bipartidarismo que ocorre em razão do processo das primárias ser longo e custoso para que os partidos consigam mobilizar o eleitorado. O fato dos partidos Democrata e Republicano dominarem o cenário político eleitoral norte americano não se dá por causa de uma lei que impõe o bipartidarismo, mas por uma dinâmica competitiva que afunila o espaço para partidos viáveis eleitoralmente.

A quarta característica é consequência da terceira: o bipartidarismo divide o eleitorado em três tipos de eleitores: o do partido Democrata, o do partido Republicano e os independentes. Geralmente, ganha o partido que mobilizar a maior parte do eleitorado independente, pois raramente o eleitorado “nato” de um partido é suficiente para garantir a vitória. Logo, historicamente, há um movimento pendular entre governos democratas e republicanos.

A quinta e mais marcante característica é que a eleição presidencial é legalmente definida por um colégio eleitoral, o que transforma a eleição em um processo indireto, pois os eleitores elegem delegados para o colégio eleitoral que, por sua vez, elege o presidente. Consequentemente, o principal desafio eleitoral para um candidato é garantir uma votação popular que seja suficiente para a formação de uma maioria de delegados, não sendo necessário ser o candidato mais votado pelos eleitores. Em 2016, Hillary Clinton teve mais votos populares que Donald Trump (respectivamente, 48,18% contra 46,09%), mas Donald Trump teve mais delegados que Hillary Clinton (respectivamente, 304 contra 227). Esse fenômeno - que deu três milhões de votos populares a mais para Hillary Clinton, mas com menos delegados - ocorreu porque ela teve uma grande vantagem de votos nos estados que ganhou, enquanto Trump teve uma pequena vantagem nos estados que ganhou, mas ele ganhou em mais estados que ela.

O que é crucial para a vitória nas eleições presidenciais dos EUA é garantir uma maior coesão no seu eleitorado, e na maior parte dos estados. Assim a mobilização de seu eleitorado tem que ser um fenômeno nacional. Outro ponto crucial é conseguir mobilizar o maior número possível do eleitorado independente para sua candidatura.

Uma sexta característica é a possibilidade da reeleição, sendo que um candidato não pode se eleger mais de duas vezes como presidente. Historicamente, um presidente que tenta a reeleição tem mais chances de vitórias e foram poucos os que não conseguiram. A vantagem de ser presidente durante a disputa eleitoral é o maior controle da variável política governamental, especialmente na área econômica. Outro fator importante é que nas primárias o candidato que tenta a reeleição dificilmente terá concorrentes e assim poderá manter seu partido unido em torno de sua candidatura.

Por outro lado, a desvantagem da candidatura oposicionista é enfrentar um presidente candidato e, além disso, ela dificilmente não terá adversários nas primárias. Assim, essa candidatura terá mais dificuldades para manter seu partido unido após as primárias.

Essas últimas características colocam em destaque a importância do eleitorado independente, que não é fiel a nenhum dos dois grandes partidos. Esse eleitorado pode ou não virar eleitor e se o fizer será analisando o comportamento das candidaturas dos partidos dominantes. Geralmente, e justamente por ser independente, o eleitor independente tende a se aproximar da candidatura que se mostra menos radical e mais estável na disputa, o que é um benefício para candidaturas que unificam o partido.

Sendo assim, e nesse momento da disputa, a vantagem de Donald Trump é evidente: ele está tentando a reeleição, seu partido está unido sob sua liderança e ele tem bons resultados na economia para motivar e atrair o eleitorado independente. E a desvantagem da candidatura dos Democratas é porque as suas primárias já evidenciaram que o partido está dividido, não tem ainda uma plataforma eleitoral definida e há forte tendência dela ser mais radical nas propostas, o que tende a desestimular e afugentar o eleitorado independente.

*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP

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