04 DE JUNHO DE 2020

A política em tempos de pandemia


Desvendando a Política
03 de abril de 2020


Por Adriano Cerqueira*

O ano de 2020 foi atingido por um agente infeccioso, o “Corona vírus”, que possui um grande poder de disseminação, a ponto de em questões de semanas estar presente na maior parte da população das cidades do país atingido.

A taxa de letalidade do Corona vírus, de acordo com as informações disseminadas nos meios de comunicação, varia de 1% a 10% da população atingida (os 10% são referentes à Itália, mas há muitos alertas que essa taxa possa estar superestimada). De qualquer modo, como o vírus atinge um grande contingente de pessoas, o número de mortes, em termos absolutos (isto é, a contagem de mortos pela doença) é muito alto. Além disso, o alto número de infectados pode estressar a capacidade instalada de leitos hospitalares, de respiradouros, de máscaras que os agentes de saúde devem usar, enfim, pode causar o estrangulamento do sistema de saúde do país.

A consequência é que as famílias dos atingidos pela doença, os profissionais da saúde e os diferentes setores da sociedade que entram em contato com o impacto da infecção se tornam um poderoso grupo de pressão política que demandará do governo medidas urgentes para enfrentar a doença. Como o seu impacto se faz na base de um alto poder de contágio, a pressão política é no sentido de conter essa expansão e as fórmulas pensadas invariavelmente indicam medidas de reclusão dos indivíduos em suas casas, desde medidas radicais de quarentena a medidas menos dramáticas, permitindo que indivíduos comprovadamente não infectados continuem sua vida normal e, para aqueles testados positivamente com a infecção, será imposta a reclusão domiciliar.

Não há como discutir a legitimidade dessa demanda, afinal, é a saúde de milhões de pessoas que está sendo protegida com essa medida. Os governos dos países atuais, na sua maioria efetivamente democráticos - e não totalitários, como a China - devem responder a essa pressão, que é feita por um significativo percentual da população. Sendo assim, medidas adotadas por governos democráticos atingidos pela pandemia tendem a ser copiados pelos governos dos países atingidos posteriormente. Nesse sentido, a reclusão domiciliar tem sido a medida mais recorrentemente adotada.

Mas o cobertor é curto. Quando um grande volume de indivíduos são instados a permanecer reclusos em suas casas, esses indivíduos deixarão de ser, regularmente, consumidores, trabalhadores ou produtores de muitos produtos e serviços da sua antiga rotina não reclusa. As atividades econômicas de micro, pequenos, médios e grandes empresários será diretamente atingida por essa súbita mudança de rotina diária de milhões de indivíduos. O recolhimento domiciliar impõe um freio efetivo nas diferentes atividades econômicas do país atingido pela pandemia.

A consequência direta dessa súbita mudança da rotina de milhões de consumidores, trabalhadores e produtores é uma crise econômica, decorrente da queda da atividade econômica. Os micro, pequenos e médios empresários terão menores condições de enfrentar a mudança de rotina que os grandes empresários, mas mesmos estes terão que adotar medidas emergenciais de contingência, isto é, de enfrentamento da queda de receita decorrente da reclusão domiciliar. Por mais que medidas emergenciais de liberação de crédito, de suspensão de cobrança de impostos e taxas por parte do governo aliviem o caixa das empresas, o fato é que a economia entrará em recessão, quando não em depressão, e isso irá acontecer meses depois da crise da pandemia ter passado. E, vale lembrar, uma crise econômica dessa magnitude produz milhares, ou milhões, de mortes.

O impacto da queda da atividade econômica será imediato para um grande percentual da população em idade economicamente ativa, que segundo estudos de epidemiologia é a menor atingida pela doença causada pelo vírus. Consequentemente, esses setores pressionarão o governo para que ele aja para impedir o colapso da economia, e terão fortes argumentos a apresentar, como a fome, a miséria e o desemprego que serão gerados pela reclusão. Independente de se querer fazer juízo de qual dos lados têm mais razão, o fato é que os dois lados pressionarão o sistema representativo – lembro que não estou falando de regimes totalitários, como o Chinês – para que atenda suas demandas. Esse fato explica o comportamento dos governos efetivamente democráticos nessa crise da pandemia, que têm agido de modo inconsistente e pendular, ora impondo medidas de reclusão domiciliar, ora aliviando esse regime.

De um lado, o enfrentamento da morte de muitos cidadãos decorrentes da crise da saúde pública. De outro lado, o enfrentamento da miséria e da crise econômica decorrentes das medidas de enfrentamento da crise na saúde. Qual lado escolher? Por enquanto, os governos têm feito escolhas não definitivas e aparentemente contraditórias. Afinal, são democracias.

*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP

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