04 DE JUNHO DE 2020

O “político cientista” em ação


Desvendando a Política
15 de abril de 2020


Por Adriano Cerqueira*

Atualmente, a ciência possui uma legitimidade ancorada na crença que seu conhecimento é o mais correto para a descrição da realidade, que ele possui um caráter preditivo (antecipa acontecimentos) e possui ainda uma qualidade terapêutica (indica o que deve ser feito para enfrentar, com eficácia e eficiência, uma situação crítica). Com efeito, as modernas sociedades tendem a reverenciar o conhecimento científico como aquele que libertará a humanidade das crenças irracionais, com suas soluções tradicionais sendo acusadas de serem ineficientes e obscuras.

Mas, apesar da existência dessa crença na infalibilidade do conhecimento científico, o século XX abrigou importantes reflexões de filósofos, como Karl Popper (1902-1994), que colocaram em questão exatamente essa infalibilidade. Para ele, o que caracteriza o conhecimento científico é exatamente seu caráter falseável, isto é, de ser um conhecimento que se coloca sempre à prova do teste empírico e quanto mais falível for a teoria cientificamente elaborada, mais ela contribuirá para o desenvolvimento do conhecimento, que sempre estará em busca da verdade. A conclusão do autor é que uma verdade científica estabelecida sempre poderá ser derrubada, a qualquer momento, por alguma geração, em razão de uma nova premissa ter sido estabelecida, ou porque surgiu um novo conjunto de observações que não se ajustou aos moldes da teoria dominante, que será, assim, superada por uma mais próxima da verdade.

A ética do cientista, portanto, deve ser baseada na busca incessante da verdade, o que o leva a assumir uma postura questionadora do conhecimento científico estabelecido, e que o estimula a assumir, também, uma postura de humildade perante a verdade. Um “verdadeiro” cientista é um humilde ser cheio de dúvidas sobre o conhecimento produzido pela ciência.

Entretanto, nesta era de extensa crença no conhecimento científico, quem não é cientista - que é a grande maioria da população (o que inclui a grande maioria dos políticos) - tende justamente a querer acreditar como verdade absoluta o que os porta vozes da ciência estão afirmando. Há uma esperança de que a ciência irá promover a “cura” dos problemas contemporâneos, sejam eles da economia, da saúde, da educação etc. E quando essa crença popular na ciência, por algum motivo qualquer, ganha uma excepcional dimensão, logo ela se tornará atraente para os políticos, eternos carentes da atenção popular. Por exemplo, nestes tempos de pandemia, quantas vezes nós não escutamos algum político falar que está agindo “em nome da ciência”? Até parece que nossos políticos viraram cientistas que querem, ativamente, salvar a passiva e sofrida sociedade de algum mal terrível. Estamos testemunhando o surgimento da estranha figura do “político prof. Pardal”, ou do “político cientista”.

Alguns problemas surgem quando essa postura se torna frequente nos governantes.

O primeiro é a tentação autoritária: o governante, “em nome da ciência”, passa a prescrever os “remédios” que irão “proteger” a desamparada população: estabelecimentos comerciais serão fechados, praças públicas serão cercadas, cidadãos terão que ficar confinados nas suas casas, e só poderão sair com máscaras, entre outras medidas impostas e que contém o selo “é para o seu próprio bem, ignorante”.

O segundo é a crença que as medidas tomadas serão certeiras, darão o resultado previsto, porque são “científicas”. Porém, como vimos, o conhecimento científico é duvidoso e falível e, assim, as medidas “científicas” implementadas pelo governante poderão não gerar os resultados esperados.

O terceiro é a reversão de expectativas na população. Ela, no momento que é atingida por um evento terrível, como a pandemia, fica tão assustada que se entrega de corpo e alma para as soluções do “político cientista”. Mas os fatos têm uma dinâmica própria que muitas vezes escapa à teoria científica dominante e assim sua capacidade preditiva falha e o efeito anunciado não acontece na data prevista. Isso gera de imediato um sentimento de frustração na população. Pode acontecer, também, que os efeitos gerados pelas medidas terapêuticas adotadas pelo “político cientista“ não apenas não gerem o efeito esperado como até piorem as condições de vida da população, que se sentirá, justamente, ludibriada. Afinal, ela aceitou uma série de sacrifícios esperando os efeitos benéficos das medidas implementadas pelo “político cientista” e quando ela perceber que os sacrifícios assumidos foram em vão, ela não apenas se frustrará, como poderá até se revoltar. Esse fenômeno é identificado nas ciências sociais como “reversão de expectativas”.

Um governante, antes de querer virar uma falsa imagem de cientista, tem que assumir as melhores qualidades que um político pode ter: visão aberta para observar todo o cenário à sua volta, ouvidos para escutar as diferentes soluções propostas por conselheiros e assessores, tato para acolher os diferentes sentimentos expressos pela população e, acima de tudo, prudência, para não dar um passo além de suas possibilidades. A ciência não é cativa de nenhum ser humano, e jamais será do prepotente “político cientista”.

Os tempos atuais estão pedindo humildade para o cientista e prudência para o político.

*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP

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