04 DE AGOSTO DE 2020

Os efeitos políticos da crise Moro


Desvendando a Política
30 de abril de 2020


Por Adriano Cerqueira*

No dia 24 de abril, a política nacional sofreu um grande impacto com o anúncio de Sérgio Moro que estava deixando o Ministério da Justiça e Segurança Pública. As razões apresentadas foram que o presidente Bolsonaro, ao demitir o Diretor Geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, teria agido para poder colocar alguém de sua confiança para ter maior controle sobre as ações da PF. As denúncias apresentadas pelo ex-ministro foram importantes a ponto do Procurador Geral da República, Augusto Aras, ter solicitado ao Supremo Tribunal Federal a abertura de um inquérito para apura-las, no intuito de determinar as responsabilidades, seja do presidente Bolsonaro, no sentido de ter maior interferência no trabalho da PF, seja do ex-ministro Sérgio Moro, no sentido de ter feito uma falsa denúncia. O STF aceitou a abertura do inquérito.

Sérgio Moro tomou posse do Ministério da Justiça e Segurança Pública logo no início do governo Bolsonaro. O ministério se tornou fortalecido, politicamente, com sua fusão com o antigo Ministério da Segurança Pública e por isso Sérgio Moro foi logo alcunhado de “superministro”, assumindo ar de intocável, principalmente por conta de sua alta popularidade junto à população. Tudo indicava que Bolsonaro havia incorporado um grande capital político com a parceria com Moro, que também estava assumindo um perfil mais político ao dirigir um ministério dessa importância. Moro aplicou o selo da operação “Lava Jato” no governo Bolsonaro, reforçando o discurso do presidente de querer fazer uma “nova política”, sem concessões de cargos e verbas públicas visando obter uma base de apoio no Congresso Nacional ampla o suficiente para lhe proporcionar “governabilidade” (facilidade de aprovar leis e medidas provisórias).

De fato, após um ano de governo, Bolsonaro perdeu diversas votações e vetos no Congresso Nacional e ficou evidente que ele não contava com uma ampla base de apoio na casa, pelo contrário, ele até saiu do partido no qual ele se elegeu para a presidência, o PSL. Nesse período, houve muitas manifestações críticas ao governo e à postura do presidente Bolsonaro por deputados do chamado “Centrão”. Além da ausência de uma base ampla de apoio partidário no Congresso, Bolsonaro desenvolveu uma relação muito conflituosa com os chamados grandes meios de informação (a grande imprensa), o que lhe custou constantes notícias negativas publicadas por esses meios.

Mas até que ponto tanta frente de oposição teria causado estragos na imagem de Bolsonaro? Para poder responder essa questão, pode-se analisar o histórico de pesquisas de avaliação do governo feitas pelo Instituto Datafolha. Desde a posse de Bolsonaro, o Datafolha publicou cinco pesquisas de avaliação de seu governo, a primeira no início de abril de 2019 e a quinta e última no final de abril de 2020. Nesse intervalo de tempo, os percentuais de “ótimo/bom” para Bolsonaro foram: 32%; 33%; 29%; 30%; 33%. E os percentuais de “péssimo/ruim” para Bolsonaro foram: 30%; 33%; 38%; 36%; 38%.

Analisando os percentuais de avaliação positiva (conceitos de ”ótimo” e “bom”) e os percentuais de avaliação negativa (conceitos de “péssimo” e “ruim”) fica evidente que a avaliação positiva de Bolsonaro não se alterou depois de mais de um ano de governo, enquanto a avaliação negativa teve um pequeno crescimento de 30% para 38%. Importante ressaltar que a última pesquisa foi feita no dia 27 de abril de 2020, já captando os efeitos das saídas do Ministro da Saúde, Henrique Mandetta (que ficou muito popular em tempos de pandemia) e, principalmente, de Sérgio Moro (o ex superministro). O que esses percentuais significam?

Significam, basicamente, que Bolsonaro não perdeu sua base eleitoral desde que assumiu o governo. Há um terço do eleitorado que o avalia positivamente, mesmo após ter enfrentado um ano repleto de crises políticas geradas pelos efeitos da falta de uma base ampliada de apoio parlamentar, da relação conflituosa com a grande imprensa, da saída de ministros populares, como Mandetta e Moro e das várias frentes de denúncias, incluindo os inquéritos promovidos no STF e a CPMI no Congresso Nacional, todas investigando a base de apoio de Bolsonaro nas redes sociais. Como ele ainda consegue manter um terço do eleitorado?

Bolsonaro tem sua popularidade totalmente ancorada na sua base de mobilização nas redes sociais, o que lhe garante independência dos demais poderes, incluindo o chamado “quarto poder” (a grande imprensa). O fato de seu índice de aprovação não ter sido abalado pelo episódio da saída do super ministro Moro indica aos presidentes da Câmara dos Deputados (Rodrigo Maia), do Senado Federal (David Alcolumbre) e do STF (Dias Toffoli) que Bolsonaro ainda tem uma grande capacidade de agir com independência, pois consegue rapidamente colocar milhões de seguidores nas ruas usando sua base de mobilização nas redes sociais. E Bolsonaro parece estar sinalizando a esses poderes que está com disposição de ter uma relação mais amistosa com o Congresso e com o STF, o que indica que ele já possa estar construindo a montagem de uma ampla base de apoio no Congresso. Bolsonaro tem muito a lhes oferecer, além de cargos e verbas públicas, pois ele tem ainda uma impressionante e fiel base de apoio popular mobilizada diretamente nas redes sociais. Isso, como vimos, não é pouca coisa.

*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP

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