03 DE JUNHO DE 2020

A agenda política nas eleições


Desvendando a Política
13 de maio de 2020


Por Adriano Cerqueira*

Nos processos eleitorais, em democracias políticas, são vários fatores decisivos para a construção de uma candidatura sólida e geralmente vitoriosa. A pessoa do candidato (carismática e convincente), o apoio de militantes (partidários ou não), uma forte presença na opinião pública (mídia tradicional e/ou social) e acesso a recursos financeiros são os principais fatores que sustentam uma candidatura, mas além deles há um outro fundamental: a definição da agenda política no período eleitoral.

A agenda política é constituída por diversos atores, como os candidatos, os partidos, as mídias e, evidentemente, o eleitorado. Esses atores reverberam na esfera da opinião pública suas impressões, análises e sentimentos impactados pela conjuntura, sendo que essa conjuntura pode ser subdividida tematicamente como conjuntura política, conjuntura econômica e conjuntura social.

Basicamente, a agenda política é identificada por temas. Alguns são uma marca forte que identifica a pessoa do candidato ou a imagem do partido perante o eleitorado. Nesse caso, tanto o candidato como o partido construíram uma imagem pública em um considerado período que facilita suas identificações quase de imediato pelo eleitorado. Um ponto favorável é a aquisição de um caráter reconhecido pelo eleitorado que lhe garante iniciar o processo eleitoral com uma parcela dele o escolhendo como candidato. Negativamente, esse conhecimento prévio pode lhe tirar, logo no início do processo, uma parcela do eleitorado que rejeita seus histórico e sua imagem. A mesma situação se aplica a partidos, pois alguns adquiriram uma forte marca no eleitorado, como o “partido da governabilidade”, o “partido do social”, o “partido do meio ambiente” e assim vai. Isso traz apoio e rejeição prévios a esses partidos.

Porém, outras temas importantes são desenvolvidos nas conjunturas eleitorais e assim não são cativos de nenhum partido ou candidato. Os momentos vividos pela sociedade variam e dependendo de eventuais crises emergem temas que se impõem a todos os candidatos. Este ano, por exemplo, a agenda eleitoral em todo o país está dominada pelo tema da “pandemia”, ou do “Coronavírus”. Apesar de 2020 ser um ano dedicado às eleições municipais, certamente todos os candidatos aos cargos de prefeito e vereador deverão estar atentos a esse tema como um assunto de primeira grandeza para suas ambições eleitorais.

Alguns candidatos - cuja história de vida é identificada com a saúde - podem sair em vantagem, pois eles se apresentarão ao eleitorado com a imagem de um especialista na área, ou de um profissional que fez sua vida atendendo a saúde da população. Outros candidatos - que estão na prefeitura e procuram sua reeleição - já estão atuando na agenda política do Coronavírus. Nesse sentido, eles fazem todo tipo de decreto municipal que procura restringir a circulação da população dentro da cidade, impedir que estranhos entrem na cidade sem a devida autorização ou justificação, restringir o funcionamento do comércio a apenas algumas atividades consideradas “essenciais”, entre outras medidas. A intenção política-eleitoral deles é clara: construir a imagem do candidato “preocupado em proteger a vida e a saúde da população”, e dessa forma atingir a maioria do eleitorado que, segundo as pesquisas de opinião, aprova esse tipo de medida.

Há um segundo tema que está dominando a cena política-eleitoral, que é a situação da economia, pois as medidas de restrição de circulação de pessoas e de abertura do comércio estão afetando o bolso da maioria da população, com muitos já desempregados em estabelecimentos comerciais que não estão podendo funcionar por não serem considerados “essenciais”. Além disso, o caixa das prefeituras, dos estados e da União têm como principal fonte de receita os tributos cobrados de pequenas, médias e grandes empresas as quais, por serem na maioria não “essenciais”, estão fechadas e sem receitas. Logo, sem receitas, sem tributos. Com isso, o funcionalismo público municipal, estadual e federal sofrerá as consequências negativas da queda de receita (muitos já estão sofrendo). Por tudo isso, a perda de renda e de emprego será um tema forte na campanha eleitoral deste ano e, certamente, será o tema dominante nas eleições de 2022, quando serão eleitos o presidente da república, os governadores de estados, os senadores e deputados estaduais e federais. Se hoje o figurino eleitoral pede um candidato “mais preocupado com a vida do cidadão”, logo mais esse figurino pedirá “um candidato mais preocupado com o emprego do cidadão”.

A agenda política nos ensina que em processos eleitorais é mais importante o candidato se adequar às preocupações dominantes da população que apenas querer ser um candidato fechado nas suas convicções pessoais. Uma candidatura vencedora é aquela que consegue dialogar com a população, acolhendo suas preocupações mais sentidas no momento e lhes dando um tratamento político, na forma de discursos e programas de governo. Desse modo, ele poderá convencer a população que estará comprometido, uma vez eleito, a enfrentar essas preocupações para superá-las.

Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP

Veja mais


Desvendando a Política
29 de mai de 2020
A vantagem de quem disputa a reeleição...

Desvendando a Política
30 de abr de 2020
Os efeitos políticos da crise Moro...












ITABIRITO
OURO PRETO
MARIANA
BRASIL
MUNDO
ARTIGOS
GALERIA
EDIÇÕES
SOBRE NÓS

 CONTATO
       

PARCEIROS