08 DE AGOSTO DE 2020

As eleições municipais e a pandemia


Desvendando a Política
10 de julho de 2020


Por Adriano Cerqueira*

No dia dois de julho, a Câmara dos Deputados promulgou a Emenda Constitucional 107/20 que adiou as eleições municipais deste ano para novembro. Agora, o primeiro turno das eleições será no dia 15 de novembro e o segundo turno no dia 29 de novembro. O adiamento foi uma consequência direta dos efeitos do Covid-19.

O calendário eleitoral sofreu uma prorrogação de 42 dias e alterou, significativamente, as estratégias dos candidatos para as eleições.

Primeiramente, os candidatos ganharam mais tempo para fazerem suas campanhas, seja oficial ou informalmente. Para aqueles que são pouco conhecidos, a ampliação do prazo lhes dará mais chances para se tornarem conhecidos e sonharem com alguma surpresa na eleição de novembro.

Em segundo lugar, para os prefeitos que pretendem se recandidatar, o adiamento poderá diminuir os efeitos da pandemia nos respectivos município e, portanto, nos seus governos. Eles poderão tratar de outros assuntos na campanha e reforçarem aquelas ações feitas, mas que ficaram escondidas pelos problemas na saúde pública.

Em terceiro lugar, os eleitores terão mais tempo para conhecerem os candidatos, de terem uma visão mais ampliada dos assuntos municipais (e não apenas aqueles gerados pelo Coronavírus) e até mesmo, quem sabe, de participarem das campanhas de ruas naqueles municípios que hoje estão sob severas medidas de “isolamento social”.

Isso porque os efeitos da pandemia não foram os mesmos para todos os municípios. Alguns tiveram um baixo impacto causado pela doença, enquanto outros foram bastante impactados pelos problemas de saúde pública decorrentes da doença. Para os primeiros, o adiamento da eleição lhes dará mais tempo para conhecerem os candidatos e debaterem os problemas mais sentidos pelos habitantes do município. Mas para os municípios que sofreram muito com o Coronavírus, como Uberlândia e Belo Horizonte, serão grandes seus efeitos nas eleições municipais. Nesse caso, as decisões tomadas contra o Covid-19 pelos atuais prefeitos merecerão muita atenção do eleitorado. O modo como o prefeito se comunicou com a população, as promessas feitas no enfrentamento da doença, seu posicionamento sobre a falada dicotomia saúde versus economia, o impacto econômico gerado pela pandemia, o número total de mortos, tudo isso será muito explorado nas campanhas eleitorais, seja pelo candidato da situação, seja pelos da oposição. Logo, nos municípios que sofreram com o Coronavírus, a pandemia continuará sendo muito falada até novembro.

A influência do apoio político do governador do Estado, Romeu Zema, e do presidente da República, Jair Bolsonaro, será maior ou menor a depender do município. Naqueles que foram muito impactados pela doença, o apoio deles será mais crítico e polêmico, pois o eleitorado será estimulado a comparar o comportamento deles durante a pandemia com o do prefeito do município. Nesses municípios deverá acontecer forte polarização entre aqueles candidatos que defenderão as medidas de “isolamento social” contra os que defenderão que as medidas deveriam ter tido mais cuidado com a situação da economia do município. Mas nos que tiveram, comparativamente, poucos problemas causados pelo Coronavírus, os apoios do governador e do presidente serão mais ou menos influentes a depender das composições políticas feitas pelos candidatos, seguindo uma dinâmica própria e pouco influenciada pelo fator externo da pandemia.

O fato é que esta eleição será excepcional em razão do efeito combinado de dois fatores: a pandemia e o crescente poder das redes sociais. Nos anos recentes, mais e mais pessoas passaram a se relacionar virtualmente e a pandemia, com as medidas de “isolamento social”, reforçou ainda mais essa tendência. Quem não tinha um smartphone, teve que sair atrás de um. Quem não tinha uma internet, teve que arrumar um jeito de usá-la ou de melhorar a velocidade de sua conexão. Acesso à internet virou uma necessidade básica para uma parte considerável do eleitorado e o comportamento de se relacionar nas redes sociais só aumentou. Por isso, a comunicação política dos candidatos deverá estar centrada nessas redes, uma tendência que já estava acontecendo antes da pandemia, mas que, agora, muito se acentuou.

O evento extraordinário do Coronavírus reforçou um que já estava ocorrendo nos últimos anos e isso resultou no reforço das redes sociais como o principal meio de comunicação entre os indivíduos. Esse fenômeno será decisivo nas eleições municipais de 2020 e o candidato que tiver uma boa estratégia de comunicação política nas redes sociais terá mais chances de conseguir uma boa performance eleitoral.

O mundo virtual capturou a política real.

Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP

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