08 DE AGOSTO DE 2020

O plano Cruzado e a pandemia


Desvendando a Política
22 de julho de 2020


Por Adriano Cerqueira*

Em 28 de fevereiro de 1986 foi decretado pelo presidente José Sarney o plano Cruzado que objetivava acabar com uma inflação crônica que atingia a economia brasileira. A medida mais impactante do plano foi o tabelamento de preços de vários itens da economia, como alimentos, combustíveis, serviços, entre outros.

O que se pretendia com o tabelamento de preços seria promover uma espécie de “congelamento” na inflação, simbolizada pelo preço que o consumidor pagava quando fosse pagar por um produto ou serviço. Logo, o plano identificava o preço final dos produtos como o culpado pela inflação e se o preço fosse “controlado”, a inflação também seria. Porém, esse pressuposto é falso, pois o preço é um efeito da inflação, nunca sua causa. Mas por que inverter a relação de causa-efeito?

A explicação é dada pelo impacto político que o tabelamento de preços gera. Esse desejo foi escancarado no discurso do presidente Sarney, quando ele convocou a população para ser uma guardiã do plano, para que ela atuasse no mercado denunciando os “maus” empresários que não estivessem obedecendo o tabelamento promovido pelo governo. Foi nesse contexto que surgiram os “fiscais do Sarney”, zelosos cidadãos que estavam dispostos a até fechar estabelecimentos que não estivessem cumprindo a lei. Ficou famoso o episódio de um cidadão que lacrou um supermercado em Curitiba, em 01 de março, e que bradava para as câmaras de televisão que ele era um fiscal do plano Cruzado.

Claro que o passar dos meses foi revelando a falácia da equação e a manutenção de preços irreais logo levou ao desabastecimento de produtos. O auge foi a falta de carne, em outubro de 1986. E como reagiu o governo Sarney? Mobilizou os aparatos de repressão a favor do plano e mandou a Polícia Federal confiscar bois nos pastos. A ideia era clara: o que estava gerando a falta de produtos era o indivíduo que trabalhava contra o plano, agindo de modo criminoso e justificando a ação da polícia. Enfim, o culpado era o comportamento de alguns indivíduos mal intencionados.

O tabelamento produzido pelo plano Cruzado, ao demorar muitos meses, teve o destino esperado de todo plano econômico que se ampara na tentativa de controlar o comportamento do indivíduo na economia: falhou. Não há poder estatal capaz de fazer tal coisa.

Mas o que o plano Cruzado tem a ver com a pandemia?

As situações estão se assemelhando porque o atual enfrentamento da pandemia no Brasil está ocorrendo há mais de três meses e as ações dos governos estão cada vez mais se amparando em medidas que pretendem responsabilizar diretamente o comportamento do indivíduo pela própria pandemia.

Há aumento no número de casos? A culpa será de quem insiste de sair de casa (afinal, foi decretado uma espécie de tabelamento domiciliar – todos devem ficar recolhidos). Mas alguém teve que sair de casa? Que o indivíduo seja obrigado a usar a máscara. E que seja denunciado aquele que não estiver usando. E assim as vítimas da pandemia são transformadas em agentes causadores da doença. E quem mais promove essa acusação, claro, são os governantes, que ficam confortáveis na situação de proibirem tudo e de usarem seus aparatos de repressão nos indivíduos que estariam agindo errado. Eles transferem a responsabilidade pelo enfrentamento da doença aos governados, e acabam por estimular um clima de animosidade entre eles.

Do ponto de vista político, em um primeiro momento, esse pacote de ações gerou muita popularidade para os governantes que o fizeram, pois a população ficou aterrorizada com a doença, mas com o passar dos meses o efeito está acabando e as pesquisas já estão revelando a perda de popularidade nesses governantes. Como foi demonstrado no artigo “Game Theory of Social Distancing in Response to an Epidemic”, de Timothy C. Reluga (publicado em PLOS Computational Biology, 2010), os indivíduos esperam um benefício em troca das ações restritivas que em um primeiro momento aceitam, mas se o benefício demora para acontecer e, o que é pior, se ocorrer um aumento expressivo nos casos de infecção e mortes, eles ficam com a sensação que os meses de recolhimento foram em vão e tendem a relaxar no comportamento auto restritivo. Isso está acontecendo no Brasil, com o agravamento das doenças pulmonares por causa do clima frio do inverno e que agravaram o quadro da pandemia.

Concluindo, é preocupante que muitos governantes continuem promovendo a culpa pela pandemia no comportamento dos indivíduos, pois isso é evidência que eles não estão sabendo enfrentar a doença de modo responsável. Como foi feito com a inflação, na época do plano Cruzado.

*Cientista Político/Diretor de GIGA Instituto de Pesquisa
Professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG
Professor de Administração Pública da UFOP

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