18 DE JANEIRO DE 2019

O voo livre do Capitão


Carta aos Tempos
23 de novembro de 2018


*Gustavo Fechus

Hoje é sábado. Não importa exatamente qual. Não sei ao certo em que dia da semana este texto sairá impresso em letra de jornal. Não sei nem mesmo se este texto será publicado, se percorrerá as ruas, se descansará no balcão dos comércios, se ao menos servirá de embrulho para objeto frágil, forro para gaiola de passarinho. Também não sei se este texto encontrará quem o leia, nem se o eventual leitor, entre tantas urgências, o abandonará nas primeiras linhas, correrá os olhos até a metade, resistirá comigo até o final. Mas existe o acaso e a coincidência, a hipótese de irmos juntos até o fim. Se isso realmente acontecer, nós provavelmente compartilharemos o instante exato – independentemente de qual o seja – em que a mais recente decisão de Jair Messias Bolsonaro, o eleito, terá sido revogada por outra decisão ainda mais recente do que a última.  

Em meio a idas e vindas, as primeiras semanas deste governo de transição apenas reafirmam o que já se anunciava desde sempre, desde o início da campanha eleitoral, desde a formação do mundo, desde Gênesis, capítulo 17: falta projeto, sobra despreparo. Não há como impedir a claridade do sol, nem há peneira capaz de projetar um aro de sombra diante da frágil integração – e mesmo da precaríssima afinidade de ideias – dos membros mais importantes do novo governo. Sérgio Moro, o probo, ao aceitar o Ministério da Justiça, coroa magistralmente a narrativa de perseguição ao líder do PT, impedido de integrar a campanha eleitoral, exatamente porque atropelaria todo e qualquer adversário logo no primeiro turno, segundo Ibopes e Botequins. Mas, com aclamação popular em alta e antipetismo à solta, o juiz da República Caucasiana de Curitiba angaria (de)votos, acumula prestígio e prepara terreno para a próxima corrida presidencial, em 2022, quando se apresentarão os atléticos Ciro Gomes, o isento, João Dória, o imaculado, e ele, Sérgio Moro, o justo. Isso se houver eleição.

 Antes, porém, de antecipar o futuro, é preciso cuidar do presente: deste tempo de agora, o único de que dispomos, em que vivemos e a partir do qual nós e os galos teceremos a manhã; deste tempo tão novo e, como nunca antes, tão velho; deste tempo triste, mas paradoxalmente eufórico. É natural que novos governos provoquem certo deslumbramento, um toque quase ingênuo de esperança – como no natal e no trinta e um de dezembro. A diferença é que, deslumbramentos à parte, os efeitos da eleição de Bolsonaro já se sentem objetivamente, seja pelas elementares contradições na escolha de seus ministros – vejam-se, por exemplo, o caixa dois de Onyx Lorenzoni e o helicóptero de cocaína de Gustavo Perrella –, seja pelas inconsequentes decisões desferidas à queima-roupa, ainda no prelúdio do show de horrores que há de ser esse governo.

A saída dos cubanos do Programa Mais Médicos, bem como a incitação à vigilância de professores pelo Programa Escola Sem Partido são apenas dois aspectos, entre muitos outros, que já evidenciam a desfaçatez e a irresponsabilidade de quem apenas improvisa, de quem joga com a opinião pública e de quem não conhece o terreno onde pisa. Formado em paraquedismo, o Capitão sempre esteve habituado a cair em queda livre. Até hoje, no entanto, nunca havia passado pela experiência de levar nas costas um país inteiro.

*Gustavo Fechus (1989) é de Pouso Alegre - MG, mas desde 2007 mudou-se para a região de Ouro Preto. Na UFOP, fez graduação em Letras e mestrado em Estudos da Linguagem. Gustavo é professor de Literatura, Redação e Língua Portuguesa.



Veja mais


Carta aos Tempos
11 de jan de 2019
A essência cultural de Minas...

Carta aos Tempos
14 de dez de 2018
Onde há acerto de Jair Bolsonaro...













QUER FICAR POR DENTRO DAS NOVIDADES? CLIQUE E CADASTRE O SEU EMAIL, PROMETEMOS NÃO ENVIAR SPAM!
ITABIRITO
OURO PRETO
MARIANA
BRASIL
MUNDO
ARTIGOS
GALERIA
EDIÇÕES
SOBRE NÓS

 CONTATO
   

PARCEIROS