18 DE FEVEREIRO DE 2019

Rompimento de barragem se repete em Minas e preocupa moradores de áreas de risco


Ouro Preto
01 de fevereiro de 2019
Barragem de Marzagão - Crédito Revista Brasil Mineral

Moradores da região estão entre os desaparecidos na tragédia de Brumadinho

Após três anos da tragédia em Mariana, com o rompimento da barragem de Fundão, em novembro de 2015, o mundo novamente volta suas atenções para Minas Gerais. Dessa vez, com o rompimento da barragem de Feijão, em Brumadinho, ocorrido na sexta-feira (25). O desastre em Brumadinho foi bem maior com relação a vítimas, passando de cem o número de mortos e mais de 250 desaparecidos até o momento. Entre os desaparecidos estão não apenas trabalhadores da empresa como moradores da região. O fato reacende a discussão sobre a utilização de barragens de rejeitos e a preocupação com a possibilidade de novas ocorrências, já que apenas em Minas há 765 barragens.

Em Ouro Preto, segundo a Defesa Civil, há 33 barragens, sendo o quinto município do País com maior concentração de rejeito acumulado. Desse total, 17 barragens apresentam alto dano potencial. “Isso não quer dizer que ela está se rompendo ou com sua estrutura comprometida. Significa que, se houver um rompimento hipotético, os prejuízos socioambientais e econômicos serão muito grandes. E, por isso, essas barragens precisam de uma atenção especial”, explica o engenheiro geológico da Defesa Civil de Ouro Preto, Charles Murta. “É fundamental o acompanhamento do poder público - especificamente com as defesas civis municipal, estadual e nacional - no Plano de Ações Emergenciais (PAE) de barragem”, enfatiza Murta. O PAE deve conter todos os quesitos de segurança para ação e defesa da população no caso de um rompimento hipotético.

Charles Murta destaca que as 17 barragens que apresentam alto potencial são de empresas como Hindalco, Gerdau, Namisa e Topázio Imperial. “Nós estamos buscando, há mais tempo, um acompanhamento mais detalhado se em nossa região existe ou não a necessidade de descomissionamento dessas barragens”, enfatiza. Para isso, o geólogo da Defesa Civil diz que é preciso a ampliação do corpo técnico do órgão. “Hoje, nós somos quatro técnicos na Defesa Civil. Não tem como nós fazermos a gestão de riscos geo-hidrológicos e geotécnicos dentro da nossa cidade, que apresenta o risco de deslizamento de encosta altíssimo no período de chuvas, mais 12 distritos e 82 localidades e, além disso, fazermos uma gestão de risco de barragens pelo grande número que nós temos”, pontua.

“Uma das providências que nós estamos tomando, de forma imediata, é a sensibilização do governo para que nos instrumente tecnicamente e que nos qualifique com profissionais adequados para ocupar os cargos. Diferente de outros governos, hoje, trabalhamos em dois turnos para tentar cumprir a demanda, que extrapola muito a capacidade atual de atuação técnica da Defesa Civil”, esclarece.

Desaparecidos da região em Brumadinho

Os prefeitos de Ouro Preto, Júlio Pimenta, e de Mariana, Duarte Júnior, estiveram em Brumadinho para prestar solidariedade e apoio à população. Eles também buscaram informações de algumas pessoas desaparecidas da região. Há moradores de Ouro Preto, Mariana e Itabirito. Ainda não há os números de desaparecidos da região. A reportagem de O Liberal entrou em contato com a Vale durante a semana, mas não há dados de desaparecidos por região.

Esclarecimentos

Preocupados em resguardar a integridade dos moradores em localidades onde há barragens, a população se reuniu no distrito de Antônio Pereira e também no bairro Saramenha, para se informar sobre a situação das barragens do Doutor e Marzagão, respectivamente.

Na noite da segunda-feira (28) moradores de Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto, estiveram reunidos com representantes do Executivo para falarem sobre a barragem do Doutor, que está localizada no distrito, muito próxima às residências. Após o rompimento da barragem de Brumadinho, aumenta o medo das pessoas que moram em área de risco. “A comunidade está preocupada, pois tivemos um simulado aqui no distrito no ano passado, promovido por representantes da Vale; mas, no dia, a sirene não funcionou e, depois disso, eles não voltaram mais para testar o equipamento ou sequer nos dar um posicionamento”, revela Marlete Barros, moradora do distrito.

Os moradores ressaltaram que não são a favor da saída da mineradora Vale, mas que as operações devem continuar de forma responsável, resguardando a vida da população. Uma sugestão, que será encaminhada à Vale, é o reassentamento das famílias que estão em áreas de risco antes que uma possível tragédia aconteça.

A convite dos moradores, Antônio da Lua, membro de Comissão de Atingidos de Bento Rodrigues, falou da experiência que passaram com o rompimento da barragem de Fundão em 2015. “É preciso trabalhar com a prevenção, a comunidade tem que cobrar sim, para não acontecer o que ocorreu com a gente de Bento, que sofremos até hoje com a tragédia”, destaca. Ele ainda opinou sobre o desastre em Brumadinho: “Eu estive lá e é muito triste. Dessa vez a tragédia humana foi muito maior. É lamentável que esse crime ambiental aconteça novamente, e pior, com a mesma empresa”.

Após a reunião, que foi proposta pelo vereador Vander Leitoa, atendendo a um pedido dos moradores, foi formada uma comissão que irá se reunir com representantes da Vale para que seja esclarecida a situação do distrito. A mineradora informou que não compareceu à reunião visto que a atenção de toda equipe está voltada para Brumadinho.

Diferente de Antônio Pereira, na reunião no bairro Saramenha, na noite da quarta-feira (30) moradores contaram com a presença de uma equipe da Hindalco, que entre os assuntos, abordaram a situação da barragem de Marzagão, que está localizada no bairro e é de responsabilidade da empresa.

A reunião foi extensa, com mais de três horas de duração. O vereador Geraldo Mendes diz que os encontros com a empresa são frequentes, visto que é preciso aprovação da comunidade na implantação do processamento de rejeito a seco. “A Hindalco faz reuniões com a comunidade desde o final do ano passado para discutir sobre o tráfego de caminhões na região com os rejeitos a seco. Aproveitamos esse encontro para esclarecer sobre a barragem do Marzagão, e foi muito importante a participação da comunidade. Vimos aqui que toda cidade está preocupada, pois vieram pessoas de outros bairros também”, pontuou o vereador.

A equipe técnica da Hindalco não concedeu entrevista, mas durante a apresentação falou sobre a barragem. Durante o encontro, a grande preocupação da população era saber sobre o plano hipotético de ruptura, que a empresa precisa apresentar em caso de atendimento às emergências. Os técnicos afirmaram que o plano já foi elaborado em 2016, apresentado à Defesa Civil, mas que, no momento, passa por adaptações requeridas pelo órgão e não deu detalhes que a população almejava.

“Na verdade, as minhas questões sobre a reunião de hoje não foram respondidas. Eu não coloco a culpa só na Hindalco, pois a barragem já está lá desde a Alcan e também teve a Novelis. Mas quando a empresa veio, sabia dessa barragem, e agora a gente não sabe nada em caso de emergência caso a barragem se rompa. Onde passaria o rejeito e quais lugares seriam atingidos? Qual a composição desse rejeito? Na minha opinião, não apresentaram maior preocupação com a comunidade”, indigna-se uma moradora.

Vale anuncia o descomissionamento de todas as suas barragens a montante

A Vale informou que vai descomissionar todas as suas barragens construídas pelo método de alteamento a montante. O plano apresentado às autoridades brasileiras visa descaracterizar as estruturas como barragens de rejeitos para reintegrá-las ao meio ambiente. Atualmente, a Vale possui dez barragens construídas pelo método de alteamento a montante, e todas se encontram inativas, segundo a empresa. “Todas as barragens da Vale apresentam laudos de estabilidade emitidos por empresas externas, independentes e conceituadas internacionalmente”, informou a mineradora em nota.

As estruturas englobam: as operações de Abóboras, Vargem Grande, Capitão do Mato e Tamanduá, no complexo Vargem Grande, e as operações de Jangada, Fábrica, Segredo, João Pereira e Alto Bandeira, no complexo Paraopebas, incluindo, também, a paralisação das plantas de pelotização de Fábrica e Vargem Grande. As operações nas unidades paralisadas serão retomadas à medida que forem concluídos os descomissionamentos. O processo depende de licenciamento e pode ocorrer ao longo dos próximos três anos.

Segundo estimativa da Secretaria de Estado da Fazenda (SEF), o fim das barragens da Vale a montante em Minas Gerais vai impactar as contas do Estado em cerca de R$220 milhões, o que representa uma queda de cerca de 30% na arrecadação de tributos estaduais do setor de mineração.

A empresa não garantiu, mas disse que “a expectativa da Vale é de reaproveitar todos seus colaboradores atualmente lotados nas operações que serão paralisadas”.

Álbum de Fotos


Veja mais















QUER FICAR POR DENTRO DAS NOVIDADES? CLIQUE E CADASTRE O SEU EMAIL, PROMETEMOS NÃO ENVIAR SPAM!
ITABIRITO
OURO PRETO
MARIANA
BRASIL
MUNDO
ARTIGOS
GALERIA
EDIÇÕES
SOBRE NÓS

 CONTATO
   

PARCEIROS