20 DE SETEMBRO DE 2019

Ainda com o foco no passado


Ponto de Vista do Batista
10 de maio de 2019


Há duas semanas, falou-se aqui em referências históricas locais, tendo como foco a cultura doméstica do café e sua influência na pequena economia da comunidade, num passado não mui distante, estando ainda vivos muitos dos seus agentes. Em poucas décadas, transformações socioeconômicas fizeram desaparecer todas aquelas atividades, de tal forma que as gerações atuais não têm delas qualquer referência e quando a têm, localizam-na em tempo mais remoto. No dia-a-dia, não se percebem as transformações, mas ao cabo de algum tempo, ao avaliar a atualidade vivida e compará-la com o passado, saltam-se aos olhos as mudanças. É como caminhada por longo caminho, enquanto o pensamento está distante e as pernas se movimentam automaticamente. Somente numa pequena parada, percebe-se que todo o cenário mudou e, ao buscar pontos de referências à retaguarda, toma-se consciência do quanto já foi percorrido.

Ao dizer isso, minha mente retrocede até a infância para focalizar, justamente, uma atividade específica relativa ao café, que cabia a mim executar, logo após o almoço ao voltar da escola. Não sei se somente em nossa casa ou se era comum nas demais, onde se produzia algum café. O fato é que, para nós, havia o “café de coruja”, que devia ser catado, logo após a colheita do café em pé, para também ser aproveitado. Era o café que a coruja, grande apreciadora da rubiácea, lançava ao chão depois de comer-lhe a casa e a polpa. Como era grande o número de cafeeiros e coruja gulosa não faltava, dá para imaginar a quantidade de café, que seria desperdiçada, se não houvesse quem o recolhesse. Desconsiderando-se a torra e o socar no pilão (transformar em pó) creio que era a pior tarefa, pelo menos para mim, que a executava, movendo-me agachado, a ciscar folhas secas, que cobriam as sementes de café a serem aproveitadas. Não ficava toda a tarde, porque a mamãe me chamava para cumprir a parte dos estudos e o preparo do “para casa”, tarefa que a professora nos dava todos os dias. O tempo dedicado àquela atividade não era muito, porém o suficiente para por meus joelhos em frangalhos. Ainda hoje, lembro-me do alívio, sentido ao término da tarefa, e da lenta recuperação da normalidade dos joelhos. Você já catou café de coruja?

Sem sair do ramo alimentação, passemos às frutas, mais especificamente o mamão, item hoje indispensável no café da manhã. Segundo publicações do gênero, o mamão é apreciado em todo o Brasil, por sua vez o maior produtor da fruta e o segundo maior exportador. Nas boas mesas do café da manhã, o mamão não falta e se destaca entre as demais frutas apreciadas na primeira refeição. Talvez as gerações mais novas não saibam, mas, isso não foi sempre assim. Na minha infância, o mamão era fruta exageradamente grande e de gosto horrível, dificilmente tolerado se não disfarçado com bastante açúcar. Ainda nos anos sessenta, revista de uma organização religiosa norte-americana orientava seus missionários quanto aos hábitos e costumes no Brasil. Num dos artigos, ao falar sobre costumes alimentares brasileiros, havia um alerta quanto ao mamão, que não agradava ao paladar norte-americano; na verdade, não agradava nem ao brasileiro, quando se tratava de consumi-lo e in natura. Valia mais aproveitá-lo ainda verde, na condição de doces de tipos diversos. O mamão passou a ser apreciado, quando outras espécies foram introduzidas no país. Dessas tivemos frutos menores, sabor mais agradável e doce, dispensando-se pois o adicionamento de açúcar. Quem hoje aprecia o mamão nem de longe imagina o quanto ele já foi detestado.

Se o mamão melhorou de qualidade e de sabor, o mesmo não se pode dizer do tomate, legume dos mais utilizados na culinária brasileira. Esse que aí está onipresente, durante todo o ano, tão consumido que chega afetar os índices econômicos, quando se desequilibra a relação produção/demanda, nem chega aos pés de outro há muito desaparecido. Pequeno e insípido, ele ocupa o lugar do grandalhão, achatado e gomado à semelhança da moranga, também desaparecida para dar lugar à híbrida. O antigo tomate não era encontrado, todo dia, a toda hora e em todo lugar. Talvez por isso fosse mais saboroso, suculento e levemente ácido. Cortado em fatias dava para duas ou três pessoas. Só quem não o conheceu pode estar satisfeito com essa coisa, que o substituiu, além, é claro, dos produtores e toda a rede de vendas. A verdade é que, hoje todo mundo come tomate, todo dia, mas não sabe o que perdeu. É o preço que se paga, além da moeda em si, pela dita produtividade em lugar da qualidade. Poderão argumentar que o atual alimenta mais gente, mas será que alimenta mesmo? Se volume fosse suficiente, a verdade estaria garantida!


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